/DO TCHAD PARA O BRASIL: O QUE YOUSSOUF NOS ENSINA

DO TCHAD PARA O BRASIL: O QUE YOUSSOUF NOS ENSINA

10408750_857006214334912_2762166723684357570_nO Tchad é um pais que esta localizado na parte central do norte da África, cortado pelo deserto do Saara possui temperaturas que ultrapassam a casa dos 45 graus. Com uma história de milhares de anos, mantém tradições e costumes de seus ancestrais e como vários países há disputas e guerras que se eternizam.

A minha história com o Tchad era inexistente, nem nas leituras da filosofia africana ou sobre a diáspora negra, até que viajei em 2015 para o mundial de atletismo sub18 realizado na Colômbia. No meu retorno ao Brasil, passando pela sala de espera do Aeroporto de Cali, encontrei um atleta tchadiano conversando com um treinador português, Luís Heredio, do Sporting Lisboa de Portugal e da Seleção Nacional. Eu não o tinha visto correr e o treinador português me disse que ele era muito bom, além de que era muito decidido, pois saiu sozinho do seu país e resolveu, também sozinho, todos os problemas encontradas em competições como aquela. Ataquei com o meu francês de baixa qualidade e conversamos rapidamente e o atleta do Tchad demonstrou interesse de vir ao Brasil treinar e estudar. Trocamos e-mails e contatos telefones e assim o tempo passou.

 

Tempos depois voltamos a ter contato e resolvemos que ele viria para o Brasil e que ele custearia sua passagem e assim começou a luta para sua vinda. Primeiro o visto deveria ser tirado em Yaoundé em Camarões, já que não temos representação consular em N`Djamena, capital do Tchad. Depois, o custo da passagem que é muito cara para um jovem tchadiano e sua família. Por fim, seu pai conseguiu parte do dinheiro e ele vendeu seu computador e celular para completar a compra. De N´Djamena, na sua vinda, ele vai para a Ethiopia e passa um dia em Addis Abeba, no outro, chega em São Paulo. Quem o busca em Guarulhos é o nosso eterno cúmplice Neilton Moura e sua família, que o encaminhou no mesmo dia para Lavras.

Chegando aqui, o jovem de 17 anos me impressionou pela decisão e pela sua nova estatura havia crescido muito em 7 meses – após dormir algumas horas já estava treinando conosco. Ele me contou das dificuldades de seu país e de seu treinamento. Descobri que o campeonato mundial foi sua quarta competição e que seus treinos pareciam de outro mundo de tão básicos e incompletos, havia jogado apenas futebol até quinze meses antes. Ele nos impressionou em suas primeiras corridas em nossa nova pista, parecia ter nascido para correr com suas pernas finas e longas.

 

Outro dia me disse que havia recebido o convite do Canadá para ir treinar por lá, cai na besteira de perguntar o porquê de não ter aceito a proposta e vindo ao Brasil, sua resposta: – Meu pai me ensinou que não posso ser duas pessoas, havia assumido um compromisso com o senhor. Naquele momento vi que estava diante de algo diferente, que nós, treinadores, não estamos muito acostumados e que sabemos pouco sobre a educação da família dado à maioria dos jovens muçulmanos.

Youssouf Mahamat Goubaye é um exemplo para os que vivem reclamando da vida e demonstra uma segurança em suas decisões que espanta quem está por perto. Ah, o bicho é bom demais e corre como um guepardo, o veremos no mundial sub 20 este ano e, quem sabe, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro – amém.