/Entrevista com a campeã olímpica Fernandinha

Entrevista com a campeã olímpica Fernandinha

A ex atleta de voleibol e campeã olímpica em Londres 2012 Fernandinha esteve em Lavras para uma série de eventos na UFLA. A ex levantadora esteve na universidade nesta última quarta feira (29/06) para proferir uma palestra sobre esporte profissional e veganismo, além de ser a convidada especial para a abertura dos Jogos da Educação Física da UFLA.

Fernandinha recebeu a imprensa de Lavras e região para uma coletiva. A Asdela conversou com a jogadora sobre assuntos de sua carreira e suas experiências olímpicas. Confira como foi esta entrevista:

Asdela: Fernanda, pra começar, é um prazer recebê-la aqui, uma campeã olímpica não é todo dia que a gente recebe na cidade, ainda mais vinda do sul de minas, aqui na nossa região. Pensando nisso, que você é da região, nasceu nesse cotidiano, queria saber como que você começou no esporte, conheceu as modalidades esportivas e como começou no vôlei e partiu para o profissional.

13563685_1032818893472785_856222449_nFernandinha: Então, meus pais são formados em educação física, se conheceram na faculdade de educação física da UERJ, e quando eu fiz 8 anos eles falaram pra mim “Fernanda, você tem que escolher um esporte”. E eu não queria escolher um esporte, só gostava de jogo de colégio, queimada, coisas assim. Ai eles: “Não, você tem que escolher um esporte, e se não gostar a gente muda”. Ai eu falei que não queria, e eles acabaram escolhendo o que eles gostavam, “Você vai fazer vôlei, se não gostar a gente escolhe outro”. Ai eles me colocaram no vôlei, e bastou um treino pra eu falar “Caraca!! Amei!!”. Eu lembro que eu falei isso e quando cheguei em casa eu falei pro meu pai: “Pai, mas eu posso trabalhar com isso, posso ganhar dinheiro jogando vôlei?” E ele: “Pode filha”, ai eu disse que era isso que eu queria ser quando crescer. Então assim, óbvio que foi influência dos meus pais, não sei se talvez tivesse sido jogadora de vôlei, de repente teria demorado mais tempo pra vir isso em mim, então eles foram fundamentais. Eles se conheceram né, entre ataque e defesa, depois tiveram uma filha e me botaram no vôlei e eu apaixonei. Então, eu tive todo apoio deles nessa parte.

a-levantadora-fernandinha-prepara-o-saque-no-duelo-contra-a-tailandia-1341058306887_956x500Asdela: Já que estamos em ano olímpico, próximo dos jogos olímpicos, a gente tem que conversar sobre isso também, ainda mais com a sua experiência. Então, eu queria fazer 3 perguntas em uma. Primeiro a gente gostaria de saber um pouco mais sobre “aquele” jogo, o jogo contra a Rússia, que na história do voleibol feminino em jogos olímpicos, acredito que é uma das páginas mais importantes, foi imprescindível. Queria que você falasse sobre aquele dia, histórico, e também existe uma curiosidade muito grande, que os jornalistas, a imprensa, não entram na vila olímpica, você pode falar um pouco sobre ela, como é, a convivência com grandes craques e jogadores esportivos de outras modalidades e como é ser uma campeã olímpica? O André Heller quando veio aqui, ele é padrinho do Viva Vôlei, e ele falou que nem a Marcelly, esposa dele, conseguiu entender um pouco sobre a dimensão, o que é você chegar no ouro olímpico, ai eu queria que você falasse um pouco disso pra gente.

P1170089Fernandinha: Bom, eu acho que não só no feminino, mas eu acho que no voleibol não tenha existido um jogo daquele, em nenhum campeonato, principalmente em uma Olimpíada. Então, foi super incrível, mas foi super tenso, tanto pra quem estava assistindo na televisão, pra quem estava na torcida e pra quem estava no banco também, e lógico pra quem estava dentro de quadra, mas acho que menos pior pra quem já estava dentro de quadra, porque é sempre essa situação. No jogo da Rússia eu estava no banco, e chegou um momento assim que eu acho que foi incrível, que deu uma impulsionada, foi que o jogo estava pau a pau, e de repente a torcida começou a gritar “Ohhh, o campeão voltou,…” e só tinha brasileiro dentro daquele ginásio em Londres, e a gente foi crescendo e aquilo assim, com certeza a torcida foi o sétimo jogador, foi fundamental pra gente. E a certo ponto o jogo estava tão louco, tão forte, tão intenso, que nós que estávamos no banco, ficamos como torcedoras também, nem pensava em entrar, estava só torcendo e queria que o jogo acabasse e que a gente ganhasse. Aquilo ali eu acho que foi, sem dúvida, uma final antecipada, a gente foi iluminada, com aquelas bolas que a Sheila rodou, acho que nunca mais… Não desmerecendo, porque é uma atacante incrível, mas o que ela fez, como se diz hoje em dia, “mitou”, rsrs… Incrível! Com relação a vila olímpica e a entrada da imprensa, realmente ela não pode entrar, mas assim, é difícil porque a imprensa as vezes vem com uma pressão em cima que não é positiva, pode atrapalhar os atletas. A vila olímpica, até me perguntaram antes “Você esta sentindo o espírito olímpico?”, eu falei que não, porque você só sente quando você entra na vila olímpica. É um Fernandinhapecado com o futebol, porque eles ficam fora, eles não ficam na vila, e eles acham que eles são VIP, mas eu tenho pena porque é maravilhoso ficar lá, você vê um cara que chegou, campeão, você vê Phelps e outros craques, brasileiros mesmo que você não teve contato mais conhece ali, senta junto na mesma mesa pra almoçar… Com o Zé Roberto (técnico) é mais complicado porque você não tem tempo nem pra dar um abraço, tirar uma foto ou fazer uma tietagem com algum, ele não deixa não, é certinho… mas tem um clima, uma vibe diferente, uma energia ali dentro. Então a vila olímpica eu acho que você realmente só sente que você esta nas Olimpíadas quando você põe o crachá e passou na porta de entrada da vila. Eu acho que é aí que você sente a diferença.

Ser campeã olímpica é difícil, eu acho que é meio óbvio, todo mundo fala isso, mas não tem uma palavra a dizer, porque, a trajetória nossa também pra chegar lá, a gente quase não classificou, e de repente a gente foi foi foi, e Campeãs… de alguma forma dentro da gente, a gente mesmo quando estava lá na lama, a gente sentia que aquele ouro era nosso e a gente falava “Meu Deus, mas como que a gente vai conseguir esse ouro?”, não sei, mas que a gente vai, vai.. a gente sentia isso. Então foi uma coisa muito especial, sou realmente muito grata de ter participado, não só por ser campeã olímpica mas de ter participado desta seleção, porque, não desmerecendo os outros ouros olímpicos, devem ter sido incríveis também, mas esse eu acho que foi especial, eu acho difícil uma outra seleção escrever uma outra olimpíada ou campeonato ou ganhar um outro ouro olímpico da forma que foi, então é incrível quando a nossa bandeira vai lá no lugar mais alto e nosso hino toca, nossa, é o que eu esperei minha vida inteira, então ali foi realmente o auge, o ápice.

Asdela: Como você esta vindo também para um evento acadêmico, a gente queria ver com você, que passou pelo esporte, principalmente no Brasil, hoje é possível um atleta seguir além da vida profissional, a vida acadêmica, e como foi na sua vida esse paralelo sobre essas duas carreiras distintas

jogadoras-do-brasil-se-preparam-para-entrar-em-quadra-na-final-do-volei-feminino-contra-os-estados-unidos-1344706402347_956x500Fernandinha: Eu gostaria muito de responder que sim, mas 90% dos clubes não apoiam, não ajudam. Eu sei, por exemplo, que o Bernardinho, se você quer fazer faculdade, ele tenta colocar o treino em um horário em que você consiga fazer, mesmo que você faça menos matérias, mas já ajuda. Então, quem joga vôlei com ele, eu sei que muitas jogadoras que jogaram com ele durante muitos anos, que ficam 2, 3 ou 4 anos, conseguiram se formar, mas é assim, olha quantos times existem. Eu não consegui me formar, no máximo que eu consegui fazer era curso de inglês, um cursinho ali, mas assim, faculdade infelizmente eu posso dizer que se você não jogar com ele ou algum outro treinador que eu não conheça ou nunca ouvi falar, é impossível. Não é só a questão de você ficar só cansada, que é uma questão importante, mas que você realmente tem quem descansar pra poder render, e é falta de apoio mesmo, por causa do horário, você não tem como, ou você vai pra faculdade ou você treina, é seu trabalho. Então, falta apoio sim, para o atleta poder se formar, porque hoje que eu parei de jogar gostaria de ser formada pra eu já trabalhar naquilo, agora eu tenho que recomeçar, então, facilitaria muito minha vida se eu pudesse ter estudado enquanto eu era atleta profissional, e talvez, não fazer em 4 anos como o normal, podia fazer em mais tempo, menos matérias, mas que eu  pudesse ter feito, eu e todas as jogadoras, todas as atletas, porque é uma pena mesmo que a gente não possa fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Asdela: Pra encerrar, teve como você fazer um pé de meia com a sua carreira de atleta?

Fernandinha: Mais ou menos, é que as pessoas acham que só porque você joga vôlei que a gente é rica, porque aparece na televisão e aí a gente tem dinheiro. A família sempre acha né, se alguém esta precisando de dinheiro é só ligar pra Fernanda que ela empresta, rs, é assim, sério… assim, deu pra fazer um pé de meia? Deu, estou me mantendo neste tempo com isso e algumas. (Fim da entrevista)

Outras mídias de Lavras estavam presentes na entrevista coletiva. Veja a seguir a matéria realizada pelo canal Lavras TV!!!

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